O mundo de DAZE

terça-feira, 9 de maio de 2017

Dos muros e vagões de trens nova-iorquinos para as maiores galerias de arte do mundo. Daze cresceu nos guetos da cidade nos anos 1970 e foi um dos principais personagens na criação da cultura underground do grafitti.

Daze, 1983. Foto: Michael Transue

Um dos únicos de sua época que transitou pelo mercado da arte, ele já expôs com Basquiat e levou seu trabalho para Monte Carlo, Hong Kong, Paris, Pequim, Chicago e Singapura. Algumas das suas obras estão na coleção permanente de museus como o MOMA; o Brooklyn Museum; o Groninger Museum, na Holanda; o Ludwig Museum, na Alemanha; e nas paredes de estrelas como a Madonna e o Eric Clapton. Marco na cultura de rua norte-americana, também foi retratado na série The Get Down, produzida pela Netflix. Batemos um papo com ele para saber mais sobre o seu ponto de vista da subcultura que conquistou o mundo.

O fim do passado.

Como você começou a pintar?

Eu tenho esse lado artístico desde pequeno. Sempre gostei de pintar e desenhar meus próprios quadrinhos. Comecei a perceber os desenhos que corriam nos trens, e foi aí que eu me interessei pelo grafitti. Depois, em 1976, eu conheci alguns artistas da minha escola e, a partir daí e até 1982, a minha vida girou em torno disso. Nós fomos a segunda geração de grafiteiros de Nova York, e, apesar de não fazer mais grafites em trens atualmente, a pintura em geral continua sendo o principal foco da minha vida, e ela define quem eu sou nesse mundo.

DON. Década de 70.

Quem eram esses artistas que te influenciaram?

Os caras que eu realmente admirava e me inspiraram foram o Blade, o Tracy168, o Don1, o Jester, o Cliff159, o Noc167, o Fuzz, o Chain3, o Part e o Padre.

DON. Década de 70.

Tem alguma pintura preferida dessa época?

Eu diria que a arte que mais me chamou a atenção e mais me impressionou foi uma do Blade. Ele pintou um vagão inteiro com garotas dançando nos dois lados do trem. Era magnífico, e quando eu vi o trem passando eu soube que eu precisava fazer parte daquele mundo. Eu nunca pintei trens com o Blade, mas, hoje, é uma honra poder chamá-lo de amigo.

Blade

Como era o processo de criação? Era planejado ou tudo no freestyle?

As pessoas que estão de fora sempre acham que o grafitti é um ato meio aleatório. Mas, na verdade, é uma coisa altamente premeditada. A gente trabalha em rascunhos, as locações são profundamente estudadas para ter o máximo de visibilidade, e, depois que o trabalho está feito, tudo é documentado. Às vezes, o processo inteiro é documentado.

Com BR. Rio de Janeiro, 2007.

Você participava de outros movimentos da cultura hip hop?

Pintar trens era tudo na minha vida. Se eu não estava fazendo isso, estava roubando tintas, fazendo rascunhos, fotografando trens ou socializando com os outros artistas. Eu simplesmente não tinha tempo pra ir a festas ou sair com os amigos. Claro que eu conhecia DJs e MCs, mas poucas pessoas se envolviam em mais de uma coisa. O mundo do grafitti unia pessoas de diferentes etnias e classes sociais, não era só o pessoal dos guetos. Toda a cena me parece um pouco exagerada quando é retratada pela mídia ou em filmes e documentários. Esses elementos do hip hop, como o break dance, DJs e MCs, e o grafitti vieram das mesmas áreas, só que o movimento do grafitti raramente se misturava com os outros.

Com Vitche, Jana e Os Gemeos. São Paulo, 2002.

No começo dos anos 80, você começou a expor seus trabalhos em galerias. O que aconteceu? Você teve alguma dificuldade em adaptar o seu trabalho para telas menores e para um ambiente mais restrito?

Eu comecei a expor meus trabalhos por volta de 1982. No início, era só um experimento, mas eu acabei achando esse tipo de pintura agradável. As pessoas começaram a escrever sobre o grafitti nos jornais da época, e o público passou a se interessar por esse tipo de cultura, que era muito underground até então. Foi muito legal fazer parte de tudo aquilo. Mas, em 1985, o interesse do público em Nova York começou a esfriar. Alguns de nós tivemos a sorte de despertar o interesse de galerias da Europa e pudemos continuar trabalhando. Foi um período difícil e eu tive que ralar muito para continuar expondo.

Escala de cinzas.

Já imaginava que o grafitti viraria uma cultura mundial como é hoje?

Eu nunca pensei que as galerias, que estavam distantes do mundo do grafitti, se interessariam pelo que eu fazia. Eu achava que a pintura seria uma coisa temporária na minha vida, e depois eu seguiria em frente. Hoje, eu tenho 41 anos e continuo pintando.

Pequim, China. 2010.

Como foi trabalhar em Get Down e ter um personagem baseado em você?

Trabalhar na série foi uma ótima experiência. Eu fui chamado no meio da primeira temporada para dar mais autenticidade aos elementos do grafitti. Musicalmente e visualmente, eu estou muito impressionado com a coisa toda. O diretor, Baz Luhrmann, fez um excelente trabalho capturando os elementos-chave daquele período. A última notícia que eu recebi foi que eles estavam animando o meu personagem na série.

Baton Rouge, 2014.

Você tem uma relação especial com o Brasil, principalmente com o Rio. Como foi chegar nesse novo cenário do grafitti? Foi diferente de Nova York?

O Rio é parecido e, ao mesmo tempo, completamente diferente de Nova York. Uma coisa que me impressionou na cultura do hip hop carioca é que não era uma coisa da “moda”, mas um movimento que dava voz àqueles que normalmente não tinham. E a galera realmente denuncia essa situação de injustiça e desigualdade. Eu sempre senti que você não precisa passar uma mensagem política para ser político. O ato de desafiar o sistema já é político. E eu só pude identificar isso no Rio porque já tinha vivenciado o mesmo em Nova York. Quando eu pisei na cidade pela primeira vez, eu não queria ser aquele cara que só faz umas pinturas e vai embora. Eu queria fazer parte do que estava acontecendo ali.

Candomblé, 2006.

Sendo o mais “carioca” dos grafiteiros nova-iorquinos, como a cidade te inspira?

O Rio me inspira de diversas maneiras, de um jeito bom e ruim. Eu acho que o que eu vejo lá é um equilíbrio perfeito entre a arte e a vida. Os dois estão entrelaçados de uma maneira em que não há separação. Tem a música, a arte, a cultura da praia, a comida e, mais do que tudo, eu me inspiro nas pessoas. Os artistas têm que partir e voltar para serem levados a sério. Se não fosse por isso, eu ainda estaria por aí. Eu não vou ao Rio há algum tempo, mas eu ainda consigo saber o que está acontecendo via internet. A cena do grafitti cresceu e os artistas com quem eu pintava há 10 anos cresceram bastante.

Linha M, 1981.

O que você acha das medidas do prefeito de São Paulo contra o grafitti?

O Doria só encontrou um outro jeito de gastar o dinheiro dos impostos dos cidadãos. Isso rolou em Nova York há décadas, e já foi provado que é um desperdício de dinheiro.

Vista da 161st

Conte um pouco sobre o seu livro. Onde a gente encontra?

Meu livro se chama Dazeworld, e eu tento levar o leitor desde o meu humilde começo até o presente. É uma espécie de “melhores momentos”, com os pontos-chave da minha carreira. Ele pode ser achado em Shiffer Books ou na Amazon.

São Paulo, 2002

Tags: Arte, Design, Entrevista, Referência

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