O último dos bárbaros

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Imagine largar a faculdade, e, junto com um amigo, embarcar numa viagem sem passagem de volta com um único objetivo: ir em busca das melhores ondas do mundo. Imagine ser um dos primeiros a surfar Tavarua e ver de perto campeões mundiais revolucionando o surfe na década de 70. Essas são algumas das experiências vividas por William Finnegan e relatadas em seu livro Barbarian Days.

Finnegan, o local Viti Savaiinaea e o amigo Bryan Di Salvatori. Samoa, Fiji, em 1978.

Finnegan é escritor de longa data da revista New Yorker e já foi correspondente na África, na Europa, nos Bálcãs, na Austrália, na América Central e na América do Sul, cobrindo guerras, conflitos sociais e outros tipos de reportagens muito distantes do mundo do surfe. Mas, desde pequeno, ele carrega uma fascinação pelas ondas, e acabou ganhando o Pulitzer Prize quando resolveu botar sua própria história no papel. Seu livro está na lista dos mais vendidos do New York Times

Em algum lugar do Oriente.

Segundo o jornalista e surfista Thad Ziolswski, a maioria dos livros e artigos sobre o assunto ou são escritos por “não surfistas”, que erram feio ao descrever ondas, manobras e a beleza do “esporte”; ou pelos próprios praticantes, que produzem textos com uma linguagem pobre e pretensiosa, por estarem sempre muito ocupados pegando onda ao invés de aprender a escrever. Para ele, Finnegan conseguiu produzir uma obra com a visão de um surfista, mas com a técnica literária de um escritor, tornando o texto claro e agradável e atingindo os públicos que entendem ou não do assunto. 

William Finnegan na juventude.

William Finnegan diz que sempre teve uma vida dupla: em alguns momentos, era o cara que vivia para a família, os trabalhos e os estudos; em outros, vivia única e exclusivamente para o surfe. Pegou sua primeira onda aos 10 anos, em Ventura. Aos 11, ganhou uma prancha de presente do pai e, no mesmo inverno, aprendeu a surfar. Em 1966, sua família se mudou para o South Shore de Oahu, quando o pai começou a trabalhar na clássica série de televisão Hawaii Five-0. Mesmo sofrendo preconceito por ser Haole e vivendo uma juventude cheia de brigas violentas, ele foi, aos poucos, ganhando o respeito dos locais dentro e fora d’água.  

Autor em Rincon, 1967.

Já adolescente, ele volta à Califórnia no fim da década de 60, e lá vivencia a revolução do surfe. Depois de assistir ao campeão mundial Bob McTavish quebrando nas ondas de Rincon com uma pranchinha, resolve trocar seu longboard por uma Mini Feather de 7’0’’: mais leve, mais ágil e mais dinâmica. Mais tarde, larga a faculdade para morar em Maui, onde surfa Honolua Bay sob efeito de LSD, e, trabalhando em uma livraria, consegue juntar dinheiro para viajar pela Europa em busca de autoconhecimento. 

Tavarua, Fiji, 2002

Inspirado pelo clássico Endless Summer, decide partir para o mundo com seu amigo Bryan Di Salvatore atrás das ondas. No total, passam 4 anos longe de casa, começando pelo Pacífico Sul, explorando Samoa, Taiti e Fiji, onde acabam encontrando o melhor pico de suas vidas: a recém-descoberta Tavarua. Uma ilha só para ele e alguns amigos, com um visual e ondas de tirar o fôlego. Austrália, Indonésia e Tailândia também entram no destino de Finnegan um pouco antes de se instalar na África do Sul, lugar que o surpreendeu pelas direitas intermináveis de Jeffreys Bay, mas também pela impactante experiência de dar aulas em uma escola de negros em pleno apartheid. Foi nessa época que ele começou a se engajar em questões políticas e sociais. 

Tavarua, Fiji, 1978.

São Francisco foi o cenário de um dos seus artigos mais famosos para a New Yorker, “Playing Doc’s Games”, sobre um médico surfista de ondas gigantes, geladas e muito poderosas. Mas a maioria das matérias que escrevia eram focadas em assuntos que, na época, julgava mais importantes. O surfe foi ficando um pouco de lado, como uma parte escondida da sua vida que só aparecia quando ele se refugiava na Ilha da Madeira para aproveitar as ondas do inverno.

Cloudbreak, Fiji, 2005.

Barbarian Days não é só um livro sobre ondas perfeitas, paraísos escondidos e viagens de dar inveja. São memórias de uma obsessão, de um profundo e complexo encantamento. É, também, uma extensa pesquisa do autor sobre a própria vida. Ele conta que recorreu a muitos diários antigos, anotações de amigos e ex-namoradas e jornais da época para não ser enganado pelas próprias lembranças. Um livro com descrições quase sinestésicas: das belas paisagens, das ondas alucinantes e dos olhares das personagens, mas também dos medos e das fraquezas, das vitórias e das derrotas do próprio autor. É uma obra com tantas recordações que chega a provocar uma nostalgia proustiana de uma vida que não vivemos, de lugares e épocas que não presenciamos. 

Tags: Referência, Surfe, Viagem

Voltar para o blog